PSICOSSOMA
O BISPO

I

"Gostei da sopinha" falou Amoroso da Fonseca para a sua doméstica Benfeitora. Cuidadosamente ele lambia uma mancha da batina, re-saboreando-a. Aliviar-se dos gases ele queria também, mas não se permitia ainda todas as liberdades na proximidade de Benfeitora, pois somente fazia um meio ano que ela trabalhava na sua casa. Enfim, permitiu-se o arroto que tanto significava para ele o resumo do prazer ingerido, a pós-sobremesa, a contemplação final do que tinha comido.

A contemplação era o conteúdo principal da sua vida, de índole filosófica principalmente, da onde ele partia, então, ao que mais lhe interessava, mas estava impedido de viver, pelo menos aberta e sinceramente, pela decisão de vida que tinha tomado.

Seguindo a sua doméstica com os olhos, ela levando os pratos em direção à cozinha, ele se sentia satisfeito com esta sua decisão, porque assim estava a salvo das imponderabilidades que a vida sensual traria consigo, comercialmente visto.

Benfeitora não era uma daquelas domésticas sacristãs de padrão, como poderia-se supor pelo contentamento do bispo, mas era uma jovem viúva, bem equipada com todas as vantagens da natureza feminina. A felicidade de Dom Amoroso, porem, mais se baseava nas "bem-aventuranças materiais", que a sabedoria sacristã lhe proporcionava.

A copa era separada da cozinha por um corredor com porta oscilante, e na medida que as suas oscilações diminuíam, depois da abundância de Benfeitora ter passado, os sentidos aquecidos de Dom Amoroso receberam algum refrescamento.

Benfeitora sempre se encabulava com Dom Amoroso, porque, quando servia à mesa ou estava fazendo algo na proximidade dele, sentia uma espécie de desconserto que tinha haver, suspeitou ela, com a sua pose de reverendo.

Há sempre ela achava, que a ética profissional, como em todos os outros ramos de ofícios, era uma santa hipocrisia, sem que ela tivesse à disposição um acervo de vocabulário, que lhe permitisse a se expressar desta maneira.

Ela gostava de trabalhar para o Dom Senhor, como costumava de chamá-lo nos momentos de encabulamento, pois, do jeito que eram traçados os canteiros da horta da convivência, ela sabia como conduzir-se com decoro especial.

II

Dom Amoroso dirigiu a sua atenção para a reunião da tarde.

O gerente do "Banco de Poupanças" tinha avisado a ele, que a matriz da capital tivesse liberado uma verba para a restauração da igrejinha municipal.

Dom Amoroso, que nunca tinha sido muito idealista, o que era um dos motivos para o seu ingresso aos serviços à piedade, sabia bem da moral poupadora do povo do local, que não era das melhores e, que o banco pagava mais aluguel pelo prédio que usava do que tinha lucro com a confiança na poupança dos seus clientes.

Ele tinha que trocar de batina e, enquanto fazia isto, pensava sobre de que jeito iria aceitar a doação ou, melhor, o "cavalo troiano" do "Banco de Poupanças". Ele, primeiro, ouviria as ressalvas humanitárias do gerente, enquanto engendrava a sua comunicação do desconforto da sacristia ao receber a doação.

Louvar publicamente as "boas intenções" do doador teria sido para ele uma traição da verdade, apesar, de que não podia negar, que a doação em si fosse muito bem-vinda.

Assim, então, armado com estas considerações prévias, Dom Amoroso seguia o caminho para o centro da cidade da sua sacristia.

III

Benfeitora tinha ficado viúva na florida idade de trinta e dois. Ela tinha perdido o marido no incêndio de uma casa na periferia da cidade, ele bombeiro. O destino tinha sacrificado aquele homem bondoso em plena dedicação ao seu ideal bombeiro de ajudar e preservar, como se quisesse exemplificar a sua imparcialidade e indivisibilidade perante a ingenuidade da doutrina do bem.

Após uns anos, passados de luto no seio da família dos cunhados, ela não mais se sentia capaz de contrair matrimônio novo, de um lado por causa do controle exercido pelos seus familiares que a protegiam como se ela fosse um bem do irmão falecido, do outro lado, pelo anseio próprio à liberdade.

Benfeitora, tendo amadurecido a tal introspecção, aproveitara, então, a bela ocasião de o bispo do município estar chamando, para dar a ela esta nova missão.

Parecia a ela um presente do falecido marido, ela poder colocar à serviço da piedade os seus dons acumulados, treinados e consagrados na convivência com o impecável bombeiro.

Tudo, que ela pudesse traduzir dos seus desejos mais elementares, ela procurava expressar em comidas saborosas e requintadas, economia rigorosa e ordem e limpidez conseqüente.

Beneficiado por tal adestrada energia feminina, comprazia-se Dom Amoroso, mal vislumbrando os impulsos da natureza e em confiança ao manual católico para a condução louvável de uma vida sacristã.

Ele sentia, sim, o sub-gemido nos seus sentidos, mas mentia bem, na sua mente, a proposta comportamental do profissional.

Benfeitora resplandecia no ambiente, onde podiam fluir as suas qualidades matriarcais abundantes, se sabendo reconhecida por a quem tanto adorava.

IV

O sujeito era de barba falha e de músculos e tendões rijos. A pele escura bem esticada, o cabelo preto cortado curto, a estatura mediana. Ele se vestia, de preferência, com uma calça preta e uma camisa branca, porque achava que pudesse encobrir assim a sua mísera aparência. A sua nota pessoal era o cinto que, apesar de plástico, carregava na fechadura os iniciais grandes do seu nome. Só os sapatos ele não conseguia arrumar do jeito que queria, pois desde pequeno ele usava chinelo, quando não andava descalço, e seu calcanhar rachado inspirava a ninguém a idéia que faltava sapato. Como não tinha profissão, não tinha dinheiro, e seu senso de liberdade não permitia emprego. Assim ele se virava entre gestos serviçais de um e dedicados de outro lado, ganhando o seu pão pelas duas maneiras.

Ele tinha apreendido a explorar o imediatismo, a reação espontânea, como forma de ser, e nisto residia o seu inegável charme. Os, que recebiam o seu carinho, acharam, que o mundo fosse mágico, porque na sua presença parecia mudar a luz do dia, realçando e reformulando os contornos dos entornos, feitos berço da existência, trazendo soluções e aberturas por aparentes coincidências milagrosas na sua re-organização de elementos comuns.

Aqueles, a quais ele servia, apreciavam o seu senso de objetividade, sem que percebessem que foram servidos com criatividade. Os seus ganhos e recompensas sempre foram pequenos, seja uma refeição ou um dinheirinho, mas ninguém questionava os seus chinelos.

Como era filho de pais religiosos, que quiseram dar a ele uma boa base para a vida, ele foi batizado de Justo, mas nem ele entendia bem, se era pela desconfiança à graça que inspirava ou por algum outro destino, que tinha levado, feito senso comum, o apelido de Faustino.

V

De rosto radiante e de passo acelerado precipitava-se o gerente das poupanças em direção ao bispo, que esperava esticado numa confortável poltrona há mais que uma meia hora. Os dois não eram nativos da cidade, nem da região, e cada um tinha desenvolvido uma postura social, na qual eram cúmplices se servindo a bola.

O bispo, determinado a aceitar a ofertada promessa de favores, comunicava ao gerente o desconforto político da sacristia a respeito da doação, sugerindo, que fosse exposto um aviso nos lugares mais freqüentados da cidade, como também no lado exterior da porta da igreja, anunciando uma palestra informativa sobre os benefícios de uma conta corrente, serviço que até então não se incluía nas atividades do banco. Isto ele julgava progresso e argumentava com o gerente, que só a consciência sobre a sinergia de opostos e complementares, como Banco e Igreja, pudesse levar o povo à atitude de poupar.

Também o gerente, membro fundador do recém criado "Clube de Campo, Caça e Pesca", "CCCP", achou tudo isto bom termo e convidou a Sua Excelência, como autoridade estabelecida da hierarquia municipal, para a solenidade inaugural no próximo dia dez.

Saindo do salão de ar condicionado, pondo os pés no pó seco ensolarado da Rua Principal, tigrada pelas marcas úmidas de uma água despejada, Dom Amoroso sentia a sede de quem trabalhou no calor do sol e logo descansou num banco em frente à casa do seu fiel preferido, certo que oferecessem a ele de imediato uma água fresca e especialmente guardada. Um menino engraxate, pedindo ao reverenciado permissão para embrilhar os seus sapatos, fez ele sentir-se cosmopolita na sua satisfação de ter intermediado entre afins e opositores, seja qual fosse a sua razão.

A tarde em declínio leva o bispo rumo à casa, onde Benfeitora já o espera preocupada e ofegando, procurando acalmar-se, pois havia acontecido o que, de maneira nenhuma, poderia ser percebido.

VI

Toda a cidade conhecia Faustino, como todos conheciam o bispo e muitos o gerente de banco. Faustino tinha nascido na periferia, naquela rua onde tinha morrido num incêndio o bombeiro, que era marido de Benfeitora. Ele era do lugar, mesmo tendo viajado, mas ninguém sabia muito da sua vida, e ele nunca nada comentava. As vezes ele ficava ausente por meses e voltava com as bolsas cheias de muamba, coisas que não se tinha fácil naquele lugar: perfumes, castiçais, reloginhos e xales de sintética seda. Ele vendia as coisas barato, até as dava, com o seu coração cheio de orgulho e bondade: o que se percebia da pessoa de Faustino era diferente do que se conhecia como proveniente daquele tipo de gente. Ele também não namorava, falava solto e despreocupado até com as mais belas, sem nunca se obstinar ou levar um assunto a termos pessoais. Quando presente, fazia de tudo, trocava rodas, conservava torneiras, entregava recados e intermediava negócios. Ele sempre alegrava com um boa conversa, inspirador espirituoso. Quando tinha fome, ele arrumava o que comer, tinha as suas opções e alternativas conforme o dia e o humor. Mais do que tudo, porem, atraia a ele a cozinha de Dom Amoroso, o Orador. Lá era boa a comida e muito à mão também, pelo tudo que Dom Amoroso lhe ordenava, e assim a satisfação da fome e o ofício se encontravam à sua mercê. Benfeitora tinha o costume de avisá-lo das especialidades culinárias dos dias vindouros, que anunciava em voz baixa, protegendo o dito atrás da mão. Quando contava da sobremesa para o dia de hoje, metades de pêssego em caldo viscoso, ele já entre-sentia o que se escondia neste recado saboroso. Como Faustino não tinha dúvida da dignidade de todos, ele assumia do que se atrevia, uma mão desgovernada, dirigida pelo fervor da natureza e da sua safadeza..... O estouro, que se deu nos miolos da paróquia, deixando em caos os pedaços integrantes de uma ordem tão maçante, mantida pela medida comedida da conveniência sacristã, encobre os dois rostos com o brilho prateado do pecado original. Quando se retirou, relaxado, de entre as coxas da grande mãe, aliviado do embaraço con-genital, o gênio foi à rua para ventilar o seu "mal".

VII

Dom Amoroso, para chegar em casa, escolhia o caminho pelo bosque. Depois da conversa com o gerente de banco, ele tinha ficado com aquela sede-saudade, que o levou à busca de água fresca, primeiro na casa de um fiel. Os seus pés em sapatos brilhosos se dirigiam agora para onde ele sabia fluir um riacho na relva, onde tinha sombra e flores e frescor. Sentado num tronco caído de uma árvore, para a qual a natureza já tinha formado um leito aconchegante de ervas, ele contemplava a dança das borboletas, o zunzum das abelhas, e a respiração do Criador fazia as folhas tremer na brisa. O sono com os seus sonhos o abraçou. Ele voltou à infância: o avental da sua mãe, ele encostando a cabeça sem ser o mais novo dos filhos, inhalando o cheiro de leite com o de sabonete e o mistério de mulher...... Ele acordou inquieto, levantou brusco e tomou rumo à casa, banhada na luz do desejo do errante. Percebendo que estava andando com pressa, ele diminuía o passo, mas nem por isto o seu fôlego ofegante acalmava. E de novo, ele já corria ansioso, para por ordem na sua biblioteca, que ele tinha deixado protegida pela confiança exercida e o respeito ao nobre. Chegando mais perto, mas ainda longe, se recordava de pão quente e leite com mel, a batina voando no vento forte da sua propulsão. Passado o portão ele foi para a cozinha direto, para ver o que era, o que lhe causava tanta inquietação, para se inteirar do acontecido, se foi o leite, o mel, a biblioteca, o sabonete ou o pão. Entrou lá: Benfeitora na parafernália da sua desarrumação, de cabelos semi-abertos e uma louça quebrada no chão...... Quis perguntar, ajudar, sem meio de comunicação .... Voltou ao seu quarto, para restabelecer o padrão.

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